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Tenham paciência com grávidas.

Tudo muda na gravidez – mesmo que a gente não fizesse ideia do quanto. E essas mudanças geram situações no mínimo engraçadas, e que dariam belos episódios de um sitcom. Olha só:

– Há um tempo, na igreja, uma senhora muito querida veio me dar oi. Me entregou o cartão de visitas dela com um recado: “pede pra sua mãe me ligar”. Pois bem, eu moro no condomínio vizinho ao do meus pais e os vejo com certa frequência. Mas cérebro de grávida gosta de pregar peças na gente, e eu só fui lembrar disso três semanas depois. Três semanas. Então, alerta número 1: não mandem recados urgentes por grávidas.

– Durante o carnaval, aproveitei pra dormir. Muito. Só saía da cama pra banho, comer, banheiro e só. Com a chuvinha que rolou, então, era tudo o que eu precisava. Mas estávamos com saudade dos cunhados, e chamamos eles para um almoço aqui. Fui para a cozinha, empolgada, fiz ~taco (uma camada de doritos, uma de feijão, uma de queijo, uma de carne e completa com salada de alface e tomate) e almoçamos. O marido e o irmão dele sentaram para jogar videogame, nós ficamos ali pelo sofá e eu hibernei. Não cheguei a dormir, mas durante uns belos 40 minutos fiquei deitada meio zen, sem conseguir nem falar. Péssima anfitriã. Alerta número 2: aceitem que grávidas cansam e precisam de momentos de “fazer nada”, principalmente depois de comer. Ainda bem que a família entende isso por aqui =)

– E as necessidades fisiológicas Hoje saí de casa cedo para ir ao médico. Não dirijo, então estava de carona com o marido – e em coisa de uma hora precisei urgente-urgentíssimo de um banheiro três vezes. E nem estava tomando tanta água assim, já para evitar os pit stops constantes. Alerta número 3: nunca leve uma grávida a um local sem banheiro disponível. E banheiro limpinho, por favor.

– Mais uma de hoje: 14h30 da tarde, chegando a hora da fome e eu resolvi fazer um bolinho que banana que li a receita ontem. Fui pra cozinha, liguei o forno e fui pegar os ingredientes. Abrindo o armário, dei de cara com um biscoito que comprei ontem e resolvi que seria ele mesmo. Vim trabalhar no escritório. Marido chegou em casa e perguntou o que eu estava assando – foi quando lembrei do forno. Detalhe: eram 17h da tarde. Duas horas e meia de forno ligado. Alerta número 4: não tem, gente. Tou chocada com a falta de cérebro (e o perigo!) até agora.

Mais algum recado gravidístico por aí?

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Blog, blogueira, blogar.

Hoje não vim aqui falar do pacotinho (que está super bem, por sinal – 11 semanas hoje!): vim falar de mim.

Eu sempre tive blog, sério. Desde que me lembro de ter um computador em casa, ou de ter aulas de informática no colégio. O “blogar” sempre fez parte do meu cotidiano – e naquela época, eu amava atualizar o meu diário virtual, no sentido mais literal da expressão. E fui indo assim.

Tive blog de casamento durante os preparativos para o meu, mas ainda assim extremamente pessoal. E desde 2010, se eu não me engano, resolvi que ia ser blogueira de beleza. Sou vi-ci-a-da em cosméticos, então era um caminho natural. O blog foi bem durante um tempo – nunca a ponto de virar profissão, mas sim de eu ter minhas leitoras fieis, fazer parte da lista de blogs parceiros de marcas, receber por um publi aqui ou outro ali. Mas há algum tempo não era mais pra mim. O blog foi se modificando, modificando, mas ainda não era “eu”. No fundo, no fundo, quem mudou fui eu – e eu é que não combino mais com ele.

Quando criei o Meu Pacotinho, foi para ter uma válvula de escape durante as tentativas. Mas sou monotemática: grávida, só consigo pensar no pacotinho (esse que tá na barriga). Só consigo elaborar textos sobre sintomas, pesquisas, parto, práticas, estudos, teorias, enfim, maternidade. Eu trabalho com comunicação digital, e ao produzir conteúdo para os meus clientes, já me forço a sair dessa casinha confortável. Vir aqui é um exercício leve: não tenho obrigação, mas tenho vontade. As palavras fluem mais facilmente. E o blog antigo? Não dá mais.

Cheguei a pensar em simplesmente trocar a identidade visual (que me incomoda há tempos), trocar os temas e continuar falando dessa nova fase, como se nada tivesse acontecido. Mas não me sinto confortável.

A ideia que mais tem me agradado é deletar tudo. Recomeçar. Desistir de pagar domínio e hospedagem lá (sim, porque mesmo com a falta de atualizações, eu ainda não desapeguei totalmente) e me reinventar. Aqui, talvez. Mas e a parte do desapegar, como faz?

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Ninguém conta antes da gente engravidar.

Todo mundo conta que as semanas da gravidez serão envoltas na maior felicidade imaginável, e até além. Todo mundo conta que a grávida tem desejos (e alguns chegam a dizer que, se esses desejos não forem atendidos, o baby nasce com cara daquele alimento – meu filho teria cara de paleta de morango com leite condensado, com certeza). Todo mundo conta que a família fica radiante, que a gente ganha vários presentes, que dividir essa alegria com quem a gente ama é uma delícia.

Mas ninguém conta os pormenores. Ninguém conta que, mesmo feliz, você vai ficar P da vida com tanto enjôo, ânsia e vômito. Ninguém conta que você vai passar algumas semanas desprovida de cérebro. Ninguém conta que você vai virar monotemática.

Todo mundo conta que os enjôos vão embora – mas ninguém conta que, no lugar deles, fica aquela azia independente do que você coma. E que o Leite de Magnésia vai virar o seu melhor amigo.

Todo mundo conta que a grávida fica iluminada, radiante. Mas ninguém conta que isso é por causa da quantidade abusiva de óleo que a pele produz – e resulta em espinhas que deixam a gente parecendo um chokito. Sério.

Todo mundo conta que o corpo muda para abrigar a nobre missão de gerar uma vida. Ninguém conta que os pêlos crescem numa velocidade absurda e que, enquanto você não corre na depiladora, parece ter perna de homem. Ninguém conta que você vai perder suas roupas em poucas semanas – mesmo que a barriga de grávida em si demore para despontar.

Todo mundo conta que grávida pode ter prisão de ventre. Mas ninguém conta que isso varia: tem dias em que o intestino sai de férias e parece que nunca mais vai voltar; em outros, ele resolve dar o ar da sua graça tipo TeleSena.

Todo mundo conta que as pessoas gostam de dar pitacos na vida alheia e que é bom a gente se acostumar. Ninguém conta que a sociedade tende a ser implacável a partir do momento em que você diz “tô grávida”, e que as pessoas (cheias de boas intenções) começam a regular o que você come, veste, assiste, lê, fala e até mesmo pensa.

Todo mundo conta que dividir a felicidade da gravidez é uma delícia. Ninguém conta que pessoas aleatórias, que você vê só de vez em quando, passam a achar que sua barriga (correção: que o seu púbis) é propriedade pública e saem colocando a mão quase lá sem nem pedir licença.

Todo mundo conta que fazer pré-natal é importante, e que ver nossos pacotinhos nas ultras é uma delícia. Ninguém conta que, no primeiro trimestre, a tal ultra é sempre transvaginal – exame mais constrangedor, viu, principalmente se tiver marido + mãe + sogra na salinha.

Todo mundo conta que grávida sofre alterações de humor. Ninguém conta que a gente vira uma pregnantzilla, indo do mais lindo e plácido amor ao mais profundo ódio, choro e ranger de dentes por conta, sei lá, de um copo de vitamina derramado. E que durante o surto, a gente tem consciência do quão ridícula estamos sendo – mas isso não é razão o suficiente para parar de chorar.

Todo mundo conta que a gravidez é mágica e plena. Mas ninguém conta que a gente vai se sentir sozinha, mesmo estando acompanhada 24 horas por dia. E que vai querer conversar. Mas que não vai querer ver ninguém.

Todo mundo conta que a gestação une o casal. Ninguém conta que os maridos vão precisar ter uma paciência de Jó, porque uma hora a gente quer colinho e aconchego e na outra, a maior distância possível porque tudo o que ele faz, irrita.

Todo mundo conta que ser mãe representa o maior amor do mundo. Mas ninguém conta que esse amor é avassalador. Que não importa o mau humor, o choro, os sintomas tensos: é olhar pra aquela imagem do ultrassom, ouvir o tum-tum-tum do coração, colocar a mão na barriga, escutar aquela música especial, que tudo vale a pena. Tudo. E a gente se olha no espelho e, mesmo se sentindo feia demais, enxerga a mulher mais poderosa do universo. Porque tem uma vida aqui dentro.

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Sobre peso e a mania de cuidar da vida dos outros

“Olha lá, ein, toma cuidado senão você vai virar uma bola”. Deixa eu te contar uma coisa: vou, sim. Minha barriga vai ficar do tamanho de uma melancia. Eu vou engordar, no mínimo dos mínimos, 9kg durante as próximas 32 semanas.

Peso é uma preocupação? De certa forma, sim. Não quero engordar muito além do necessário, porque isso traria riscos desnecessários para a saúde do meu filho e para a minha também. Mas vai por mim: minha última preocupação, nesse momento, é se vou continuar “bonita” para os seus padrões.

Me preocupo, por exemplo, se vou conseguir amamentar meu filho no peito por pelo menos um ano – e não em quanto tempo vou voltar a usar minhas calças jeans. Traço planos para ter o parto natural que desejo (e que escolhi depois de muita pesquisa), e não para perder rapidinho os quilos que ganhar na gestação. Prefiro ter braços fortes para dar colo e aconchego para o meu bebê do que estar magérrima e na cama, doente e desnutrida.

Fico de olho naquilo que eu como? É claro – quero que meu pacotinho se desenvolva bem, com os nutrientes que ele mais precisa (mas não por medo de engordar). Quero ser uma grávida linda, “só barriga”? Seria hipocrisia dizer que não – mas se eu tiver que escolher entre isso e saúde, prefiro ser uma mãe mais cheinha, porém saudável e feliz.

E não venha me dizer que “não é por mal” o seu tipo de comentário. Na sua gravidez, você se preocupa com o que você quiser. Mas não queira me julgar, ficar de olho na quantidade de comida que eu coloco no meu prato, ser meu nutricionista, me colocar dentro desse padrão absurdo e machista de que mulher tem que ser magra pra ser feliz. Minha felicidade vem de outras coisas – de saber que tem um serzinho se desenvolvendo aqui dentro, por exemplo. De saber que eu fui escolhida por Deus pra gerar uma vida. De acordar todos os dias e encontrar motivos para ser grata – e não para ficar ranzinha me olhando no espelho e dizendo “mimimi, engordei 100g”.

Eu cresci aprendendo a fazer escolhas saudáveis – e não a viver de dieta. E, salvo alguma necessidade muito específica que envolva recomendações médicas, vou continuar me alimentando assim. Com meus pratos coloridos, e alguns nem tanto. E quem é que tem alguma coisa a ver com isso? Eu. E meu médico, no máximo. O resto? É só o resto.