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Helena nasceu!

Pois é, não tivemos relato de 39 semanas. Apesar de ter completado esse marco na terça-feira dia 08/09, deixei para escrever o post no dia seguinte – e bom, não deu tempo. Helena chegou ao mundo no dia 09 de setembro, às 15h25, num parto domiciliar não-planejado e não-assistido à jato. É, essa semana Pacotinho já completa um mês!

Não consegui vir aqui antes. Puerpério é tenso, gente, se preparem, rs! As coisas estão começando a acalmar e se ajeitar por aqui – mas cada dia é uma novidade, uma descoberta, um motivo para pensar “será que estou fazendo certo?”. Tenho pensado em mil coisas para escrever aqui, mas no momento acabo focando em curtir e cuidar da pequena. Daqui a alguns dias volto a trabalhar (é, vida de empreendedor não é fácil, rs!), então quero cada segundo ao lado dela para lamber a cria, mesmo.

Mas, enquanto ela tira uma soneca, vim rapidinho aqui. Não tem como não dividir com vocês um pouco da emoção que eu vivi há 27 dias. Parece clichê, mas não consigo lembrar muito bem como era a vida antes dela chegar. Apesar de tão pouco tempo (menos de um mês), passa tão rápido – e é impossível pensar em felicidade sem ela aqui com a gente. Ok, parei de divagar: colo abaixo o relato do meu parto 😉 E aproveito para acabar com o anonimato, rs. E tem até foto nossa, olha só 😉

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Eu sempre quis ter um parto normal, mesmo antes de engravidar. Foi assim que eu vim ao mundo, foi assim que Deus fez as coisas – então, na minha cabeça, uma cesárea seria opção apenas por real necessidade. Um pouco antes de engravidar, descobri o caminho da humanização. Descobri que um nascimento respeitoso era muito mais do que a vida de nascimento. Descobri que mesmo uma cirurgia necessária poderia trazer um bebê ao mundo de forma calma, amorosa e tranquila. Respeitando o meu corpo e o corpo do bebê. Não tive como não me apaixonar e pensar: “é isso”. Já fui atrás de um obstetra com esse viés, e troquei de médico antes mesmo de engravidar.

E veio o positivo. Nunca me questionei novamente sobre o parto – a decisão já estava tomada há muito tempo, e o Wes embarcou nessa comigo. Depois de assistir ao documentário “O Renascimento do Parto”, então, não tivemos mais dúvidas. Salvo uma intercorrência, nossa filha viria ao mundo da forma mais natural (ou seja, sem intervenções) possível. Nem analgesia eu queria – mas tínhamos as possibilidades abertas, afinal, cada trabalho de parto é um trabalho de parto. O combinado, com nosso obstetra e doula, era que qualquer intervenção (analgesia, episio, etc) que fosse necessária seria avaliada no momento e decidida com o meu aval. Não gostaríamos de entrar na “linha de produção” do sistema obstétrico, e tínhamos total confiança na equipe de que isso seria respeitado.

Não decidimos em qual maternidade a Helena nasceria – ficamos entre duas opções e iríamos decidir na hora em que eu entrasse em trabalho de parto, principalmente para saber quem seriam os profissionais plantonistas (pediatra e anestesista). A preparação para o parto envolveu yoga para gestantes, encontros com as doulas, muita pesquisa, leitura, informação. Tinha uma playlist salva no celular para ouvir durante as contrações. Tinha um “vaso de bênçãos” com recados emocionantes de algumas amigas, para não perder a motivação na hora do desespero. Tinha combinados com o Wes e com a doula, de que só poderiam liberar a analgesia depois que eu pedisse no mínimo 500 vezes. Em todo pré-natal, falava sobre o parto com o médico: nossa intenção era o mais natural possível, e gostaríamos de esperar o trabalho de parto engrenar em casa (afinal, são quatro fases de TP e passar todas no hospital pode fazer com que o processo demore mais). Na minha cabeça, tinha tudo planejado e desenhado. Malas prontas, caminhos para os hospitais traçados, grupo no WhatsApp com as doulas. Celular do médico salvo nos favoritos.

E o pior cenário possível traçado na minha mente: entraria em TP lá depois das 41 semanas, seria um processo demoradíssimo, pra mais de 18 horas – afinal, isso é o normal para uma primeira gestação. Mas Papai do Céu tem outros planos, né?

No dia 09 de setembro, acordei com cólicas levinhas. Passei a manhã trabalhando, lavei roupa, avisei as doulas, despachei o marido pro trabalho – afinal, “são os pródomos e podemos passar dias nisso”. Não quis colocar o mundo em polvorosa por algo que duraria pelo menos alguns dias. “Não é trabalho de parto ainda”. Resolvi trabalhar apenas pela manhã e descansar na hora do almoço e à tarde, afinal, poderia engrenar em breve e eu iria precisar de energia para passar por longas horas de contrações.

O bicho pegou na hora do almoço: não consegui deitar para descansar, a bola de pilates estava incomoda, fui para o chuveiro. Pedi pro Wes vir pra casa, pra gente ver se falava com o médico, se chamava a doula, ou o que. Pedi pra antes ele comprar gatorade e pão, afinal eu não tinha comido praticamente nada. Mal sabia eu.

Lembro de, no meio da manhã, ter feito uma oração. Ter pedido pra Deus não me deixar ficar ansiosa, porque as chances eram enormes de ainda demorar. Pedi por forças, por direção, pedi pra que Ele tomasse conta de tudo como sempre – pedi pra que o tempo da Helena (e que só Ele saberia qual era) ser respeitado. Pedi para que Ele assumisse o controle, e entreguei. E confiei.

Wesley chegou em casa perto de 14h45. Eu estava pela terceira vez no chuveiro, e já não eram cólicas intensas que me permitiam cantar “you’re gonna hear me roar” bonitinha enquanto a água quente caia na minha lombar: os rugidos já eram gritos de verdade, e eu não conseguia conversar. Não conseguia responder ao Wes, só pedir que pelo amor de Deus me dessem anestesia, fizessem uma cesárea, fizessem a dor passar.

Médico pediu para que fôssemos então ao hospital, já prontos para internação. Falei que só sairia do chuveiro pra ir direto pro carro, porque a água me ajudava. Wes começou a descer as malas, voltou para o apartamento e eu pedi pra não ficar sozinha. Chamamos minha mãe, que em sete minutos estava com a gente. Wes desceu a última mala e os dois foram me tirar do chuveiro. Desligaram a água, eu levantei, e não deu. Veio outra dor – segundo o marido, nessa hora já eram uma contração atrás da outra. Me abaixei novamente, berrei para ligarem o chuveiro. Helena coroou. Em mais alguns instantes, Helena nasceu.

Helena nasceu às 15h25 do dia 09 de setembro de 2015. Com 39 semanas + 1 dia de gestação. No tempo dela. No chuveiro da casa dela. Pelas forças combinadas dela e minha. Foi acolhida por mim e pela avó materna, sob os olhos atentos e tranquilizadores do pai.

Amor, tua calma me fazia respirar mesmo em meio ao desespero. Tua mão firme na minha lombar me lembrava de que meu corpo tinha sido feito por Deus para aquilo, e que eu daria conta, sim.
Mãe, teu carinho foi fundamental. Tua disponibilidade em vir correndo sem nem saber o que estava acontecendo, tua praticidade em pegar toalhas de banho e lembrar de coisas como me dar gatorade depois de tudo, teu abraço, tua oração quando minha menina nasceu.
Tuane, Felicitas, Amanda, as palavras de vocês nos nossos encontros ecoavam na minha mente o tempo todo (pelo menos enquanto eu ainda raciocinava). O suporte de vocês ajudou a identificar o que estava acontecendo, mesmo que a gente não tenha tido tempo pra muita coisa.
Dr Cecílio, todo o conhecimento e a calma que você nos transmitiu possibilitaram que a gente não caísse no desespero quando as coisas saíram do controle e do planejado.

Meu Deus, meu Pai, meu guia, meu protetor. Quem me fez, quem conduziu a minha vida inteira, quem colocou essa preciosidade nas nossas vidas. Não tenho palavras, só tenho louvor! Tantas coisas poderiam ter saído erradas, mas o Senhor mostrou mais uma vez que é o Deus da Perfeição. Obrigada, obrigada, obrigada!

Essa é a história do meu parto. Um parto domiciliar não-planejado, sem assistência médica, mas cercado de amor e benção. Mulheres sabem parir e bebês sabem nascer.

PS: não tentem fazer isso em casa! Partos (mesmo que domiciliares) devem ser acompanhados por profissionais capacitados da área médica – sejam obstetras, enfermeiras obstetrizes ou parteiras. O que aconteceu conosco foi algo não planejado, fora da curva e, graças ao cuidado e proteção divina, tanto eu quanto Helena chegamos ao hospital perfeitamente bem.

parto-Nena

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Beijos meus e da Nena ❤

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A escolha do meu GO

No último post de relato da gravidez, a Renata me pediu para falar da escolha do meu GO humanizado. Vamos lá?

Eu sempre fui fã do parto normal – mas não tinha muitas informações sobre humanização, violência obstétrica, nada disso. Minha ginecologista parecia ser vaginalista (era a médica da minha mãe quando eu nasci, de parto normal) mas nunca chegamos a conversar sobre isso.

Nesse meio tempo (coisa de um ano, um ano e meio antes de começarmos as tentativas) eu comecei a ler sobre a humanização. Entrei no grupo “Cesárea? Não, obrigada”, passava horas lendo relatos de parto em blogs aleatórios… E a pulguinha me mordeu. Decidi que eu queria não apenas um parto vaginal, mas sim um parto respeitoso, amoroso, cheio de carinho e cuidado. E não sentia essa vibe na médica que me acompanhava até então.

Fui pesquisar sobre os nomes da humanização em Curitiba. Sempre me deparava com quatro: Dr Carlos Miner Navarro, Dr Cecílio Toniolo Neto, Dr Álvaro Silveira Neto e Dra Carla Batiuk. Catei o telefone e liguei para todos – com quem consegui a consulta mais perto foi o Dr Cecílio, que atende no Hospital Nossa Senhora das Graças. Fui lá pra fazer uma consulta de rotina e já gostei: nada de pressa, ficamos 40 minutos conversando e ele tirando todas as minhas dúvidas pré-concepção.

Aí passaram-se os meses, decidimos parar com a pílula e o resto tá documentadinho aqui no blog, rs. Quando fiz o teste de farmácia e vi a linha de positivo (dia 04 de janeiro, acho que nunca vou esquecer!), no dia seguinte liguei para marcar uma consulta com o Dr Cecílio – e já levar os exames de sangue que ele tinha deixado as guias comigo, pra quando positivasse. Consegui só para o final do mês (sinto que isso acontece porque ele não tem uma secretária dele – e sim a central de agendamentos do hospital), mas eu tinha muitas muitas cólicas e resolvi procurar um outro médico o quanto antes, para fazer um ultrassom e ver se estava tudo ok.

Quanto arrependimento. Me senti numa linha de produção, com consulta cronometrada e conversa infantilizada. Só faltou me chamar de “mãezinha” – típico daquelas histórias que eu lia de atendimento não-humanizado e achava exageradas. O tal médico não mediu minha pressão nem me pesou. Fez uma carinha de felicidade quando soube que minha mãe teve pré-eclâmpsia nas duas gestações. Se recusou a falar comigo sobre parto (“na próxima consulta a gente fala disso”). Disse que eu poderia precisar me livrar das minhas gatas “porque o protozoário da toxoplasmose viaja pelo ar” (juro). Deu um contrato de quatro páginas pra gente analisar e assinar e pagar a taxa de disponibilidade antes de 20 semanas de gestação. Enfim, saí de lá correndo pra nunca mais voltar, né? Pelo menos valeu a guia de US para ver Pacotinho pela primeira vez ❤

Enfim, sobre a escolha do GO humanizado, foi assim que aconteceu comigo. Teve muita empatia desde o princípio, e gerou uma relação de confiança tremenda (sério, o Dr Cecílio é um querido, calmo, explica tudo, coerente, não infantiliza a mulher – nem o pai da criança…). Eu queria um GO em quem eu confiasse totalmente, e encontrei. Ele é o tipo de médico que, se virar pra mim durante o trabalho de parto e falar da necessidade de alguma intervenção (sim, porque ele já adiantou que qualquer coisa que saia do planejado, ele virá me explicar e vamos decidir juntos), é porque ela é realmente necessária. Ele responde WhatsApp. Ok, as consultas sempre atrasam – mas quando a gente entra no consultório, ele dá 100% de atenção e não fica correndo contra o relógio. E gente, ele estava de plantão na noite de ano novo. Pra mim, esses itens eram/são fundamentais pra acompanhar a gestação da Pacotinho =)

E vocês, como escolheram o GO de vocês?

*** Meninas lindas, longe de mim dizer que vocês tem que fazer x ou y. Cada uma sabe o que vai no seu coração, e esse relato aqui é sobre o que está no meu. Ninguém é mais ou menos por ter parto assim ou assado, e acredito que funciona da mesma forma com outras questões relacionadas à maternidade. Lembrem-se de que da mesma forma que existem milhões de crianças no mundo, existem milhões de formas diferentes de criá-las – e cada mãe sabe o que funciona melhor para si 😉

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Ah, a falta que a noção faz.

Pois é, pacotinho é uma mocinha – nossa Helena. Sabemos disso há cinco dias, e gente, socorro. Sério. Não sei se fui eu que fiquei crica demais com a gravidez, ou se as pessoas realmente não tem noção. Querem ver só?

– Não, meu marido não vai virar ~fornecedor~. Se eu contar pra vocês quantas vezes ouvi esse comentário nos últimos dias, vocês choravam comigo. Minha filha – nem o filho de ninguém – é uma mercadoria a ser ~consumida. É, sim, uma pessoa, com desejos, vontades e personalidade própria. E quando eu fecho a cara, ainda escuto “mas é só uma brincadeira”. Não, não é. É um comentário machista e ofensivo, e eu vou continuar não gostando, me ofendendo e espalhando aos quatro ventos o quanto isso é feio e mal educado.

– Não, gente, meu mundo não vai virar cor de rosa. Sabe por quê? Porque existem outras mil tonalidades no universo (e convenhamos, tem umas roupinhas de menina rosinha inha inha que SOCORRO). Helena vai usar rosa, sim, como vai usar vermelho, preto, amarelo, azul, verde, bege, branco, e todas as outras cores. [pelo menos enquanto eu escolho, né, porque eu sei que a fase cor de rosa vai chegar um dia]

– Não, não é “sua” Helena. É minha. No máximo nossa. Mas se for só de uma ou duas pessoas, é minha e do marido, combinado? (Conversando com uma amiga grávida de um menino, ela falou que com ela rola a mesma coisa: souberam o sexo, parentada começou com “meu fulano” pra cá, “meu fulano” pra lá. GENTE, me pone loca de ciúmes).

Vai, dividam comigo e com o meu mau humor típico de segunda-feira: quais as últimas que vocês tiveram que ouvir por aí?

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Leo ou Helena?

Pois é, Pacotinho. Amanhã é dia de ultra – meio a contragosto, vamos lá, mas pro seu pai é importante saber que você é um menino ou uma menina. Nosso Leonardo ou nossa Helena.

E sabe qual é a questão? Ansiedade é contagiosa. Desde ontem fico pensando no exame, se você vai colaborar, se a médica vai conseguir ter 100% de certeza (é, porque seus pais são cricas, já vai se acostumando: só queremos saber se for certeza absoluta, nada de possibilidades). Eu, que nem queria saber o sexo.

Já fico imaginando como serão nossas fotos de gender reveal (sim, porque você precisa se mostrar amanhã, mas eu e seu pai só vamos ficar sabendo quando fizermos as fotos). Fico pensando em como contar pras avós (sua avó paterna jura de pés juntos que a gente já sabe e tá só enrolando todo mundo).

Não tenho aquele desespero pra ~começar o enxoval rosa ou azul~. Porque você, Pacotinho, vai usar rosa e azul. Vai brincar de boneca e de carrinho. Vai limpar a casa com a mamãe e o papai. Seu quarto já estava decidido muito antes de qualquer coisa – cinza, branco e amarelo. Você vai ter amor, independente do cromossomo que papai te passou.

Mas se você quiser colaborar e se mostrar amanhã, a gente não liga, viu? Mamãe promete te proteger de todas as piadas infames e machistas (seja você um Leo ou uma Helena). E prometo continuar te apertando, cantando e amando, a cada dia mais.

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Tenham paciência com grávidas.

Tudo muda na gravidez – mesmo que a gente não fizesse ideia do quanto. E essas mudanças geram situações no mínimo engraçadas, e que dariam belos episódios de um sitcom. Olha só:

– Há um tempo, na igreja, uma senhora muito querida veio me dar oi. Me entregou o cartão de visitas dela com um recado: “pede pra sua mãe me ligar”. Pois bem, eu moro no condomínio vizinho ao do meus pais e os vejo com certa frequência. Mas cérebro de grávida gosta de pregar peças na gente, e eu só fui lembrar disso três semanas depois. Três semanas. Então, alerta número 1: não mandem recados urgentes por grávidas.

– Durante o carnaval, aproveitei pra dormir. Muito. Só saía da cama pra banho, comer, banheiro e só. Com a chuvinha que rolou, então, era tudo o que eu precisava. Mas estávamos com saudade dos cunhados, e chamamos eles para um almoço aqui. Fui para a cozinha, empolgada, fiz ~taco (uma camada de doritos, uma de feijão, uma de queijo, uma de carne e completa com salada de alface e tomate) e almoçamos. O marido e o irmão dele sentaram para jogar videogame, nós ficamos ali pelo sofá e eu hibernei. Não cheguei a dormir, mas durante uns belos 40 minutos fiquei deitada meio zen, sem conseguir nem falar. Péssima anfitriã. Alerta número 2: aceitem que grávidas cansam e precisam de momentos de “fazer nada”, principalmente depois de comer. Ainda bem que a família entende isso por aqui =)

– E as necessidades fisiológicas Hoje saí de casa cedo para ir ao médico. Não dirijo, então estava de carona com o marido – e em coisa de uma hora precisei urgente-urgentíssimo de um banheiro três vezes. E nem estava tomando tanta água assim, já para evitar os pit stops constantes. Alerta número 3: nunca leve uma grávida a um local sem banheiro disponível. E banheiro limpinho, por favor.

– Mais uma de hoje: 14h30 da tarde, chegando a hora da fome e eu resolvi fazer um bolinho que banana que li a receita ontem. Fui pra cozinha, liguei o forno e fui pegar os ingredientes. Abrindo o armário, dei de cara com um biscoito que comprei ontem e resolvi que seria ele mesmo. Vim trabalhar no escritório. Marido chegou em casa e perguntou o que eu estava assando – foi quando lembrei do forno. Detalhe: eram 17h da tarde. Duas horas e meia de forno ligado. Alerta número 4: não tem, gente. Tou chocada com a falta de cérebro (e o perigo!) até agora.

Mais algum recado gravidístico por aí?

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Ninguém conta antes da gente engravidar.

Todo mundo conta que as semanas da gravidez serão envoltas na maior felicidade imaginável, e até além. Todo mundo conta que a grávida tem desejos (e alguns chegam a dizer que, se esses desejos não forem atendidos, o baby nasce com cara daquele alimento – meu filho teria cara de paleta de morango com leite condensado, com certeza). Todo mundo conta que a família fica radiante, que a gente ganha vários presentes, que dividir essa alegria com quem a gente ama é uma delícia.

Mas ninguém conta os pormenores. Ninguém conta que, mesmo feliz, você vai ficar P da vida com tanto enjôo, ânsia e vômito. Ninguém conta que você vai passar algumas semanas desprovida de cérebro. Ninguém conta que você vai virar monotemática.

Todo mundo conta que os enjôos vão embora – mas ninguém conta que, no lugar deles, fica aquela azia independente do que você coma. E que o Leite de Magnésia vai virar o seu melhor amigo.

Todo mundo conta que a grávida fica iluminada, radiante. Mas ninguém conta que isso é por causa da quantidade abusiva de óleo que a pele produz – e resulta em espinhas que deixam a gente parecendo um chokito. Sério.

Todo mundo conta que o corpo muda para abrigar a nobre missão de gerar uma vida. Ninguém conta que os pêlos crescem numa velocidade absurda e que, enquanto você não corre na depiladora, parece ter perna de homem. Ninguém conta que você vai perder suas roupas em poucas semanas – mesmo que a barriga de grávida em si demore para despontar.

Todo mundo conta que grávida pode ter prisão de ventre. Mas ninguém conta que isso varia: tem dias em que o intestino sai de férias e parece que nunca mais vai voltar; em outros, ele resolve dar o ar da sua graça tipo TeleSena.

Todo mundo conta que as pessoas gostam de dar pitacos na vida alheia e que é bom a gente se acostumar. Ninguém conta que a sociedade tende a ser implacável a partir do momento em que você diz “tô grávida”, e que as pessoas (cheias de boas intenções) começam a regular o que você come, veste, assiste, lê, fala e até mesmo pensa.

Todo mundo conta que dividir a felicidade da gravidez é uma delícia. Ninguém conta que pessoas aleatórias, que você vê só de vez em quando, passam a achar que sua barriga (correção: que o seu púbis) é propriedade pública e saem colocando a mão quase lá sem nem pedir licença.

Todo mundo conta que fazer pré-natal é importante, e que ver nossos pacotinhos nas ultras é uma delícia. Ninguém conta que, no primeiro trimestre, a tal ultra é sempre transvaginal – exame mais constrangedor, viu, principalmente se tiver marido + mãe + sogra na salinha.

Todo mundo conta que grávida sofre alterações de humor. Ninguém conta que a gente vira uma pregnantzilla, indo do mais lindo e plácido amor ao mais profundo ódio, choro e ranger de dentes por conta, sei lá, de um copo de vitamina derramado. E que durante o surto, a gente tem consciência do quão ridícula estamos sendo – mas isso não é razão o suficiente para parar de chorar.

Todo mundo conta que a gravidez é mágica e plena. Mas ninguém conta que a gente vai se sentir sozinha, mesmo estando acompanhada 24 horas por dia. E que vai querer conversar. Mas que não vai querer ver ninguém.

Todo mundo conta que a gestação une o casal. Ninguém conta que os maridos vão precisar ter uma paciência de Jó, porque uma hora a gente quer colinho e aconchego e na outra, a maior distância possível porque tudo o que ele faz, irrita.

Todo mundo conta que ser mãe representa o maior amor do mundo. Mas ninguém conta que esse amor é avassalador. Que não importa o mau humor, o choro, os sintomas tensos: é olhar pra aquela imagem do ultrassom, ouvir o tum-tum-tum do coração, colocar a mão na barriga, escutar aquela música especial, que tudo vale a pena. Tudo. E a gente se olha no espelho e, mesmo se sentindo feia demais, enxerga a mulher mais poderosa do universo. Porque tem uma vida aqui dentro.

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Sobre peso e a mania de cuidar da vida dos outros

“Olha lá, ein, toma cuidado senão você vai virar uma bola”. Deixa eu te contar uma coisa: vou, sim. Minha barriga vai ficar do tamanho de uma melancia. Eu vou engordar, no mínimo dos mínimos, 9kg durante as próximas 32 semanas.

Peso é uma preocupação? De certa forma, sim. Não quero engordar muito além do necessário, porque isso traria riscos desnecessários para a saúde do meu filho e para a minha também. Mas vai por mim: minha última preocupação, nesse momento, é se vou continuar “bonita” para os seus padrões.

Me preocupo, por exemplo, se vou conseguir amamentar meu filho no peito por pelo menos um ano – e não em quanto tempo vou voltar a usar minhas calças jeans. Traço planos para ter o parto natural que desejo (e que escolhi depois de muita pesquisa), e não para perder rapidinho os quilos que ganhar na gestação. Prefiro ter braços fortes para dar colo e aconchego para o meu bebê do que estar magérrima e na cama, doente e desnutrida.

Fico de olho naquilo que eu como? É claro – quero que meu pacotinho se desenvolva bem, com os nutrientes que ele mais precisa (mas não por medo de engordar). Quero ser uma grávida linda, “só barriga”? Seria hipocrisia dizer que não – mas se eu tiver que escolher entre isso e saúde, prefiro ser uma mãe mais cheinha, porém saudável e feliz.

E não venha me dizer que “não é por mal” o seu tipo de comentário. Na sua gravidez, você se preocupa com o que você quiser. Mas não queira me julgar, ficar de olho na quantidade de comida que eu coloco no meu prato, ser meu nutricionista, me colocar dentro desse padrão absurdo e machista de que mulher tem que ser magra pra ser feliz. Minha felicidade vem de outras coisas – de saber que tem um serzinho se desenvolvendo aqui dentro, por exemplo. De saber que eu fui escolhida por Deus pra gerar uma vida. De acordar todos os dias e encontrar motivos para ser grata – e não para ficar ranzinha me olhando no espelho e dizendo “mimimi, engordei 100g”.

Eu cresci aprendendo a fazer escolhas saudáveis – e não a viver de dieta. E, salvo alguma necessidade muito específica que envolva recomendações médicas, vou continuar me alimentando assim. Com meus pratos coloridos, e alguns nem tanto. E quem é que tem alguma coisa a ver com isso? Eu. E meu médico, no máximo. O resto? É só o resto.